5/3/03

As mulheres: vítimas dos conflitos bélicos, combatentes contra a guerra

Este 8 de março não foi igual ao de outros anos. O iminente ataque imperialista contra o Iraque tingiu as mobilizações do Dia Internacional da Mulher com um grande clamor contra a guerra.

A VIOLÊNCIA DE SEMPRE, PORÉM POR OUTROS MEIOS

“Não desde que os soldados me meteram um rifle longo e grosso aqui dentro. Como está frio como o canhão de aço que me anula o coração. Não sei se vão dispará-lo ou cravá-lo mais fundo até atravessar meu cérebro que dá voltas como um pião. Seis deles, médicos monstruosos com máscaras negras que também me penetram com garrafas. E com varas e com o cabo de uma escova.”
Eve Ensler, Monólogos da Vagina

Como um golpe duríssimo na cara, infinitamente duro. Como as humilhações de todos os dias, mas enormemente insuportáveis. Como uma violação gigante, eterna.
A guerra é para as mulheres a mais horrível barbárie: meninas órfãs que devem cuidar de seus irmãos, mulheres sem sustento andando a esmo por cidades devastadas, jovens violadas pelo inimigo e repudiadas por suas próprias famílias, idosas perdidas e abandonadas.
Enquanto escrevo estas linhas, as mulheres que estão sobrevivendo a 35 conflitos armados em todo o mundo são assassinadas, violadas ou contagiadas por Aids e engravidadas. Outras se vêem obrigadas a prostituir-se em troca de comida. São torturadas, mutiladas, usadas como escudos humanos.
Uma refugiada da Etiópia relatava para a Anistia Internacional: “Éramos quatro pessoas: meus filhos, de quatro e dois anos de idade, nosso guia e eu. Pelo caminho nos pararam dois homens que nos perguntaram aonde íamos. Quando lhes explicamos, um me agarrou e disse: ‘Não haverá caminho seguro se antes não houver sexo!’ Me jogou no chão, me deu chutes no estômago e me violou diante de meus filhos. Sabia que estava grávida.”
Outra, sobrevivente de Ruanda, declarou: “Em fevereiro de 1994, na casa de meus pais, sete homens violaram uma viúva que se hospedava com a família”. Um dos homens disse: ‘pelo menos um de nós tem Aids’. A viúva morreu, uns meses depois, dessa doença”.
Para as mulheres, o horror da guerra é diferente do que para os homens: contam com menos recursos, menos direitos políticos. As mulheres recebem rações menores de comida, lhes é negada assistência médica e muitas vezes são despojadas de seus bens. Não morrem no instante dos bombardeios; morrem lentamente depois de sofrer todo tipo de vexames e abusos ou sobrevivem tentando reconstruir uma vida que já não existirá.
Segundo o ACNUR [órgão da ONU], 80% das 50 milhões de pessoas desabri-gadas devido às guerras, são mulheres. Entretanto, se cruzam as fronteiras assumem a categoria de refugiadas, mas só ficam como desabrigadas no próprio país, não têm nada, não há mecanismos legais para ajudá-las e são vítimas de abuso para atingi-la. “Se uma mulher ou menina se recusa [a favores sexuais], quando chega a comida ou os remédios, seu nome não está na lista”, relatou uma mulher de Serra Leoa. “Se não tiver uma irmã, filha ou mulher para oferecer aos voluntários é difícil ter ajuda”, denunciou um homem.

TODAS SOMOS LISÍSTRATA
“LISÍSTRATA – Nós, na guerra anterior, nos calamos. Por nossa boa educação, tudo o que faziam agüentávamos, não nos deixavam nem gemer, mas não gostávamos. Intensificavam a guerra e lhes perguntávamos com boa educação: ‘O que há de novo sobre a guerra? O que deliberaram na Assembléia de hoje? O que há de novo sobre a trégua?’ ‘ E o que interessa a você?’, dizia o marido. ‘Não vai se calar?’ E eu me calava. (...) Porém, nos inteirávamos de decisões cada vez piores. E então perguntávamos: ‘Como fazem estas coisas, meu marido, de forma tão estúpida?’ E ele em seguida, com olhar rancoroso, dizia, ‘Vá remendar a calça. A guerra é coisa dos homens’ (...) Tratávamos de avisar-lhes, mas se negaram a escutar os conselhos. Então o desastre. Por toda a cidade choravam. ‘Não restam jovens no país’. Então, as esposas decidimos que cabia a nós salvar a Grécia. Por que esperar? Assim, calem a boca como nós fazíamos e nós lhes salvaremos de si mesmos”.
Aristófanes. Lisístrata

Milhares de manifestantes se reuniram em 8 de março passado em frente à Casa Branca para protestar contra a política de seu próprio governo contra o Iraque. Entre as manifestantes se encontravam alguns familiares das vítimas das Torres Gêmeas e, inclusive, parentes dos militares que já partiram para o Oriente Médio.
“Convidamos as mães, as avós, as irmãs e as filhas, trabalhadoras, estudantes, professoras, enfermeiras, artistas, escritoras, cantoras, poetas, e a cada mulher ordinariamente ultrajada que queira lutar pela paz. (...) Devido à nossa responsabilidade com as novas gerações, devido ao nosso amor por nossas famílias e comunidades e por este país do qual somos parte, entendemos o amor de uma mãe, no Iraque, para com seus filhos, e o desejo de conduzir essa criança pela vida. Nossos líderes nos dizem que podemos nos permitir gastar facilmente centenas de milhões de dólares nesta guerra. Porém, nos Estados Unidos da América, muitos de nossos idosos – que trabalharam muito duro toda sua vida – agora têm que escolher entre comprar seus medicamentos ou comida. Se corrói a educação de nossos filhos. O ar que respiram e a água que bebem estão contaminando-se. Grande quantidade de mulheres e de crianças vivem na pobreza.” Com estas palavras, as mulheres que permanecem em vigília em frente à Casa Branca, desde novembro do ano passado, convocavam todas as mulheres do país a somar-se ao seu protesto antibélico.
Organizada pela coalizão de organizações de mulheres autodenominada Código Rosa, a manifestação não foi a única comemoração do Dia da Mulher que se converteu em uma mobilização contra a guerra. O mesmo aconteceu em outras cidades do mundo e as mulheres foram suas protagonistas indiscutíveis.
Desde o México até a Argentina, desde os EUA até a Suécia e a Palestina, as mulheres fizeram ouvir sua reclamação. Em Bagdá, a União de Mulheres Iraquianas marchou até a sede da ONU exigindo o fim do embargo e se colocando contra a guerra que irá se iniciar contra toda a nação.
Hoje, as mulheres revolucionárias impulsionamos todas as ações progressivas contra a guerra, dizendo claramente que se trata de um ataque imperialista. Bush tem dito de maneira rude: “Conosco ou com eles” , e nós não temos dúvida de que lado estamos, frente à barbárie que querem desatar contra o povo iraquiano. Por isso sustentamos que não se deve pagar nem um centavo a mais das dívidas externas de nossos países latino-americanos, que devemos romper relações com as potências agres-soras e devemos expropriar suas empresas.
Não há tempo a perder: a guerra contra o Iraque é uma guerra também contra os povos oprimidos pelo imperialismo, contra os trabalhadores e os setores populares; é uma guerra também contra os movimentos sociais progressivos anticapitalistas. Temos que ser milhares nas ruas, e as mulheres trabalhadoras e dos setores populares devemos estar à cabeça destas mobilizações para gritar aos opressores do mundo: Não passarão!